Na última terça-feira (23), o mundo da moda respirou fundo para assistir à estreia de Demna na Gucci. Eu, que tantas vezes disse que jamais cairia nos encantos do Demna da Balenciaga, preciso admitir: esse novo capítulo já me pegou de surpresa — e de paixão.
Antes do desfile, a maison liberou 37 imagens como quadros emoldurados, quase uma galeria de arte digital. Cada look foi encarnado pelo próprio Demna, um gesto de pura ousadia performática. A mensagem era clara: estávamos prestes a ver uma Gucci tão introspectiva quanto provocadora.
Um legado florentino
Vale lembrar: a Gucci nasceu em Florença, berço não só do Renascimento como também da própria moda italiana. Em 1906, depois de trabalhar como porteiro no luxuoso Savoy Hotel em Londres, Guccio Gucci voltou à sua cidade natal decidido a transformar o que observou da elite londrina em artigos de couro sofisticados. Desde então, a marca se tornou sinônimo de opulência, excesso e, claro, escândalos familiares.
Da prisão de Aldo Gucci por sonegação de impostos ao assassinato de Maurizio Gucci orquestrado por Patrizia Reggiani, a saga Gucci sempre foi escrita em tinta dramática.
The Tiger: moda em forma de manifesto
É nesse terreno de glamour e caos que surge o curta “The Tiger”, projetado na Bolsa de Valores de Milão. Escolha nada inocente: soa como uma resposta direta às quedas nas ações da Kering após a nomeação de Demna, além de refletir a fase delicada da maison em vendas.
A trama acompanha Barbara Gucci, determinada a provar que é digna do legado do pai. No jantar de aniversário que reúne filhos, primas gêmeas e um repórter da Vanity Fair, o clima é de tensão crescente. Uma decisão desesperada da filha — misturar calmantes em bebidas alcoólicas — transforma a noite em um espetáculo de paranoia e descontrole.
Entre desabafos, surge a fala do filho mais velho, que soa como uma metáfora para toda a história da maison: “E se você estivesse diante de um tigre? Deixe que ele te coma. Aceite.” Uma alusão nada sutil às batalhas ferozes da Gucci nos anos 90, entre Tom Ford e Bernard Arnault, pelo controle da marca.
Ecos de Michele, sombras das Olsen
A entrada das gêmeas na trama é um piscar de olhos direto para Alessandro Michele e seu desfile histórico de 2022 com 68 pares de gêmeos. Mas a maneira como elas se portam — inacessíveis, irônicas, envoltas em mistério — evoca imediatamente Mary-Kate e Ashley Olsen. Um comentário velado sobre a moda inacessível, que escolhe a exclusividade ao invés da visibilidade midiática.
O grito final
O ápice vem quando Barbara, ao ouvir que jamais será como o pai, explode em um grito tão doloroso quanto libertador. Entre cacos de vidro e olhares debochados, a cena simboliza a prisão de viver para expectativas externas e a necessidade de romper com esse fardo. Aqui, Demna fala por si: seguirá as regras do jogo Gucci, mas sem trair sua identidade criativa.
O baú de Pandora
Não por acaso, a primeira imagem divulgada pela Gucci foi um baú. Símbolo das origens da marca em artigos de couro, mas também metáfora de uma Caixa de Pandora que agora se abre: um repositório de histórias, segredos e expectativas. A Gucci deposita seu futuro nas mãos de Demna — e ele, com seu olhar provocador, parece disposto a abrir cada fechadura.
“The Tiger” não é apenas um curta. É uma carta de intenções. Um manifesto sobre passado, presente e futuro da Gucci — e uma promessa de que Demna não veio para domesticar o tigre, mas para libertá-lo.
Analise por: Camila Peres Nicolini
