Você ousaria atravessar as portas da Maison Dior?
Na estreia de Jonathan Anderson à frente da coleção feminina verão 2026, foi como abrir uma caixa de memórias cintilantes — um mergulho na herança da maison, um aceno aos fantasmas criativos que moldaram sua identidade, para então projetar uma nova visão, audaciosa e profundamente consciente do futuro.
As expectativas eram altíssimas. E, como não poderia deixar de ser, o desfile da Dior foi um dos mais aguardados da temporada. Anderson, com a precisão que lhe é característica, não fugiu do peso histórico: ao contrário, abraçou o passado e devolveu-o ao presente como um sopro de vitalidade e ousadia.
O espetáculo começou com uma caixa simples no centro da passarela, embaixo de uma pirâmide invertida que projetava imagens do legado Dior: o próprio Monsieur em raros registros, ícones como o vestido Junon de 1949, as encenações maximalistas de John Galliano, a sensibilidade de Maria Grazia Chiuri e tantos outros capítulos marcantes da maison. Entre esses fragmentos, intercalavam-se cenas de filmes de terror — uma metáfora clara de Anderson sobre o peso, o temor e a glória de assumir uma das casas mais simbólicas do grupo LVMH.
A coleção em si foi um diálogo vibrante entre o século XVIII e o século XX. A lendária jaqueta Bar, símbolo do “New Look”, reapareceu verde, agora combinada a saias plissadas mais curtas, trapezoidais, unindo passado e presente com maestria. O tricórnio, chapéu militar popular entre os séculos XVI e XIX, trouxe uma dose de teatralidade histórica, enquanto o foco declarado no quadril — em minis de jeans, rendas, transparências ou volumes inspirados nas antigas paniers — retomava a sensualidade arquitetônica que sempre fascinou Dior.
O jogo de referências seguiu pelas golas altas em renda, laços exuberantes e blazers encurtados que evidenciavam a silhueta. Algumas saias evocavam diretamente o robe à la polonaise, com seus recortes e drapeados, como se Anderson tivesse reimaginado a corte para o ritmo frenético de 2026.
Do guarda-roupa masculino, Jonathan trouxe ecos delicados: golas com laços reminiscentes dos trajes do século XVIII e XIX, prova de que sua Dior é, antes de tudo, híbrida e dialogante. As capas surgiram impecáveis, as bolsas reafirmaram o savoir-faire da maison, mas foram os sapatos que roubaram a cena — e aqui Anderson brilhou. Herdeiro de sua inventividade em Loewe, ele apostou em modelos esculturais adornados por flores, uma homenagem direta à paixão de Monsieur Dior pelas flores e, em certa medida, uma evocação nostálgica dos calçados vitorianos da Peter Robinson Ltd.
Ao final, Jonathan Anderson demonstrou compreender a delicadeza do seu papel: respeitar a memória de uma maison que é, ao mesmo tempo, relíquia e farol da moda, sem abdicar de sua própria veia criativa. Foi como folhear um álbum antigo, saborear cada lembrança, fechar a caixa de memórias e guardá-la com reverência — não para esquecê-la, mas para caminhar adiante. E é exatamente esse o gesto que Anderson parece propor: uma Dior que honra sua história enquanto se permite reinventar.
Por: Camila Peres Nicolini
