Da imagem ao toque: por que a sensorialidade começa a ganhar espaço na moda e na beleza

Depois de anos em que imagem, velocidade e produção de conteúdo digital ganharam protagonismo na construção do desejo, a moda começa a voltar sua atenção para algo mais físico: a experiência de sentir. Toque, textura, conforto, proteção e sensorialidade aparecem como elementos cada vez mais importantes no desenvolvimento de produtos, aproximando universos que, até pouco tempo, eram tratados de maneira mais separada.

Essa é uma das principais leituras de Symone Rech, especialista em negócios de moda e fundadora da New & Now, a partir da edição da Première Vision que, pela primeira vez, abriu espaço para o setor de cosméticos em uma iniciativa realizada em parceria com a Cosmetic Valley.

“Moda e beleza estão se aproximando porque começam a construir desejo a partir dos mesmos elementos. Não basta mais que o produto tenha apenas uma boa aparência. Ele precisa criar uma sensação, seja no toque de um tecido, na temperatura da peça sobre o corpo ou na experiência de um produto de beleza”, afirma a especialista.

Na moda, esse movimento aparece em tecidos macios, superfícies sensoriais e materiais desenvolvidos para oferecer proteção, conforto térmico e leveza. Na beleza, está presente em fórmulas mais táteis, experiências de cuidado e embalagens que procuram estabelecer uma relação mais consciente com os materiais.

Essa mudança também está relacionada ao macrotema Living Matter, ou “Matéria Viva”, apresentado para a temporada de outono-inverno 2027/28, correspondente ao Inverno 28 no Brasil.

A proposta coloca a matéria no centro da construção de valor. Cor e forma continuam importantes, mas passam a dividir espaço com irregularidades, texturas, superfícies alteradas e sinais de transformação. Depois de um período marcado por imagens extremamente polidas e padronizadas, cresce o interesse por aquilo que transmite presença, individualidade e memória.

“Acredito que estamos entrando em uma fase em que o próximo luxo não estará somente naquilo que pode ser visto. Ele também estará naquilo que pode ser tocado, percebido e experimentado pelo corpo”, diz Symone.

Dentro dessa leitura, o movimento Matter of Time reforça a ideia de que tempo, uso e permanência também podem se transformar em atributos de valor. Tecidos desgastados, superfícies envelhecidas e materiais que se modificam ao longo do uso deixam de ser necessariamente associados à imperfeição e passam a participar da narrativa do produto.

Já em Wild Matter, a natureza deixa de ser apenas uma referência estética para também se tornar um campo de inovação. Pesquisas com micélio, algas, fermentação e biomateriais aproximam ciência e sistemas vivos, enquanto a beleza avança na combinação entre tecnologia, ingredientes e experiências conectadas ao natural.

O terceiro movimento, Matter of Ease, leva essa discussão para uma tecnologia mais discreta, voltada ao conforto e ao bem-estar. Tecidos capazes de regular temperatura, respirar, proteger ou oferecer desempenho passam a ser incorporados a peças de aparência cotidiana, sem necessariamente carregar uma estética esportiva ou tecnológica.

“Existe uma mudança importante na maneira como a inovação está sendo apresentada. A tecnologia continua presente, mas deixa de ser apenas espetáculo e começa a funcionar de forma mais silenciosa, como um suporte para conforto, proteção e cuidado”, analisa Symone.

A multiplicação de imagens digitais e o avanço da inteligência artificial também ajudam a explicar essa busca por materialidade. Em um ambiente no qual imagens impecáveis podem ser produzidas em grande volume e velocidade, características difíceis de reproduzir na tela ganham ainda mais importância no mundo físico.

Texturas, irregularidades, superfícies lavadas e materiais que carregam sinais de transformação oferecem uma experiência que o ambiente digital não consegue entregar por completo. O produto deixa de ser apenas algo para ser fotografado e compartilhado e passa a ser também algo para ser tocado, usado e experimentado.

Para o mercado brasileiro, essa tendência pode abrir oportunidades especialmente relevantes. A relação com corpo, pele, movimento e beleza já ocupa um espaço importante no comportamento de consumo do país, criando terreno para roupas mais táteis, materiais leves e protetores, superfícies sensoriais e produtos associados ao conforto e ao bem-estar.

A tradução, no entanto, precisa considerar as particularidades locais, como clima, hábitos de consumo e posicionamento de preço.

“Não se trata de copiar aquilo que aparece na Europa, mas de compreender o comportamento por trás dessas informações. A busca por conforto, sensorialidade, identidade e bem-estar já está presente no consumidor brasileiro. A oportunidade está em transformar esses sinais em produtos que façam sentido para a nossa realidade”, conclui Symone.

No encontro entre moda e beleza, a matéria volta, assim, a ocupar um lugar central. Em uma era cada vez mais digital, aquilo que pode ser tocado, sentido e vivido ganha um novo significado e pode se tornar justamente uma das formas mais potentes de construir desejo.

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