A moda nos concursos de beleza vai muito além de vestidos elaborados e produções grandiosas. Para Anderson Vaz, um traje de gala precisa traduzir a personalidade de quem o veste, respeitar sua história e valorizar sua presença na passarela. Com mais de duas décadas de experiência no universo Miss, o estilista construiu uma trajetória marcada por criações exclusivas, participações em concursos internacionais e um olhar atento às particularidades de cada candidata.
Sua relação com esse universo começou ainda na infância, quando cresceu acompanhando concursos de beleza e transformava brincadeiras em pequenas passarelas. A mãe foi sua primeira inspiração: Anderson a maquiava, penteava e criava vestidos com os materiais que encontrava. Sem condições de estudar moda formalmente, aprendeu na prática, costurando à mão e desenvolvendo seu próprio olhar criativo.
Um dos momentos decisivos de sua carreira aconteceu entre 2014 e 2015, quando um vestido inspirado em uma flor de cores vibrantes encontrada no quintal da casa de seus pais foi premiado em um concurso estadual. Posteriormente, a criação foi usada por uma representante de seu país em uma competição internacional no Egito, onde também recebeu o reconhecimento de melhor traje de gala. A experiência reforçou uma convicção que acompanha seu trabalho até hoje: uma criação marcante não depende necessariamente dos materiais mais caros, mas da força da ideia e da maneira como ela ganha forma.
Ao longo dos anos, Anderson também ampliou sua atuação para diferentes países, aprendendo a adaptar suas criações a contextos culturais distintos sem abrir mão de sua assinatura. Cores, decotes, proporções, tecidos e silhuetas são definidos a partir de uma combinação entre a identidade do estilista, as preferências da candidata e as características de cada concurso.
“Não existe um vestido perfeito isoladamente; existe o vestido certo para aquela mulher, naquele concurso e naquele momento”, afirma. Essa filosofia também explica por que ele evita repetir suas criações. Para Anderson, cada inspiração deve resultar em uma peça única, desenvolvida para valorizar quem a veste, e não para encaixar diferentes mulheres em uma mesma fórmula estética.
Glamour e a identidade
Se existe um elemento que marca o trabalho de Anderson Vaz, é sua afinidade com o maximalismo. Pedrarias, capas, caudas, franjas, ombreiras e transparências fazem parte de seu repertório criativo. O desafio, segundo ele, está em encontrar a proporção certa entre esses elementos para que o resultado mantenha a elegância sem perder a força visual.
O estilista também acompanha as transformações dos concursos de beleza, que passaram a incorporar apresentações mais performáticas e recursos pensados para gerar impacto nas redes sociais. Embora reconheça o potencial dessas novidades, defende que o espetáculo não deve se sobrepor à candidata.
“Para mim, a evolução está justamente em entender que diferentes mulheres podem transmitir glamour e presença sem precisarem parecer iguais”, explica.
Essa visão ganha ainda mais relevância quando Anderson fala sobre diversidade. Em um concurso, ele trabalha com mulheres de diferentes corpos, tons de pele, origens e personalidades. Por isso, considera que a unidade visual de uma coleção pode estar nas técnicas, nos materiais e nas cores, sem que todas as peças precisem seguir o mesmo modelo.
“O vestido nunca deve ser maior que a mulher: ele deve ser uma joia para que ela brilhe”, resume.
A cultura brasileira como inspiração
Venezuelano de origem e vivendo no Brasil, Anderson encontrou na diversidade cultural do país um campo fértil para suas criações. Antes de morar aqui, conta que conhecia principalmente as referências brasileiras ligadas ao Carnaval e ao futebol. Com o tempo, descobriu manifestações como o carimbó, o Bumba Meu Boi, o frevo, as Congadas, as Folias de Reis, além das rendas, dos bordados e de diferentes tradições artesanais.
Esse repertório transformou sua maneira de pensar a moda. Em vez de buscar inspiração exclusivamente nas passarelas internacionais, o estilista quer explorar histórias, paisagens, técnicas manuais e manifestações populares brasileiras, traduzindo essas referências para uma linguagem contemporânea.
A proposta é especialmente importante em seu trabalho no Miss Golden Brasil, concurso do qual participa desde a primeira edição como coordenador nacional. O projeto nasceu da parceria com Diego Dionísio, profissional com experiência em televisão, festivais e projetos culturais. Enquanto Anderson contribui com sua vivência no universo Miss, Diego amplia a perspectiva sobre o entretenimento e a experiência oferecida ao público.
Juntos, eles pretendem preservar elementos tradicionais dos concursos, como as apresentações de gala e traje de banho, enquanto desenvolvem uma identidade própria, pautada pela diversidade e pela valorização da cultura brasileira.
Um dos diferenciais já apresentados pelo projeto foi uma imersão on-line que ofereceu conteúdos gratuitos para mais de 500 inscritas. A programação reuniu profissionais brasileiros e internacionais em temas como passarela, automaquiagem, fotografia, presença de palco, empreendedorismo, inteligência artificial, saúde mental e projetos socioculturais.
A iniciativa reflete uma visão que Anderson considera essencial: o concurso pode oferecer oportunidades de desenvolvimento para todas as participantes, independentemente de quem conquiste a coroa.
Moda como forma de expressão
Para Anderson, a roupa também pode ser uma ferramenta de comunicação. Uma candidata pode transformar sua origem, suas memórias e suas referências culturais em elementos de uma produção, despertando a curiosidade do público sobre histórias que talvez ainda não conheça.
É por isso que o estilista valoriza as conversas com as mulheres para quem cria. Uma festa popular, uma flor, uma paisagem ou uma lembrança de família pode se tornar o ponto de partida para um vestido. A intenção é que cada peça carregue significado, sem transformar manifestações culturais em fantasias ou perder de vista a identidade de quem irá usá-la.
Na primeira edição do Miss Golden Brasil, essa proposta também estará presente nas criações da ANVAZ. A coleção reúne peças importantes da trajetória recente do estilista e novos modelos desenvolvidos especialmente para a ocasião. Os detalhes ainda são mantidos em segredo, mas Anderson adianta que o trabalho foi pensado com atenção à personalidade de cada candidata.
Sua expectativa é ver as 27 participantes subirem ao palco com criações que expressem suas diferenças. A frase que acompanha sua trajetória sintetiza essa ideia: “Rainhas vestem ANVAZ”.
O objetivo, porém, não se limita à vencedora. Para Anderson, todas as mulheres que participarem dessa experiência devem reconhecer seu próprio valor, independentemente do resultado. “A coroa é um acessório. O verdadeiro charme está na dedicação, na disciplina e em cada esforço feito para alcançar uma meta. Uma mulher charmosa não precisa ser perfeita; precisa saber quem é”, afirma.
Os planos para o futuro incluem expandir o Miss Golden Brasil pelo território nacional e preparar as representantes para conquistar títulos internacionais. Anderson e Diego também alimentam uma ambição maior: transformar o Brasil em palco de uma futura edição internacional do concurso, trazendo para cá candidatas e olhares de diferentes partes do mundo.
